Não tenho registrado o momento em que o nome “Laboratório de Práticas Biopoéticas”, contraído na sigla LABios, surgiu como vislumbre conceitual de um projeto que ainda estava em formação. A visão que se apresentava era a de um conjunto de experiências e práticas somático-sensoriais desde uma perspectiva não antropocêntrica do fazer artístico, ou seja, não baseada na premissa da excepcionalidade humana. Formulado pelo biólogo e performer norte-americano David Abram (2012), e retomado por Isabelle Stengers em “Reativar o animismo” (2017), o conceito de “mais-que-humano” encontra-me na circunstância de viver cercada por entes não humanos com os quais passei a conviver desde que saí do meio urbano, levando-me a prestar atenção às múltiplas existências falantes que produzem seus mundos no Mundo. Interessava-me investigar possíveis desdobramentos poéticos resultantes dessas interações entre os corpos humanos e os demais seres do ambiente dentro de cenários de encontro.
Interessava-me investigar como desorganizar o corpo individualista e formar novos agenciamentos coletivos em composição ética com Gaia. Um radical processo de mutação demanda estratégias adaptativas e o cultivo de “respons-habilidades” (Haraway, 2023) – habilidades para responder aos acontecimentos em curso. A questão central que emerge dessas indagações e inquietações que motivaram a pesquisa é: como se dá a incubação de novos modos de existência? Como podemos ajudar a fazer emergir o [n]ovo no mundo? Foi então que retomei os estudos do formativo com Regina Favre, compreendendo que o primeiro passo seria a instauração do meu próprio laboratório de práticas, inspirado em sua instalação didática. Essa proposta fundamenta-se, essencialmente, em dar a ver:
como corpos se produzem numa embriogênese continuada, se tecem a si mesmos como um dentro e um fora, uma superfície e uma profundidade, que as bordas contêm a excitação do vivido imerso no acontecimento, que os corpos se fazem em ambientes-acontecimentos ao longo de sua história formativa, em gradientes de mais ou menos consistência, mais e menos excitação… (Favre, 2022, 147)
O conceito de ‘biopoética’ emerge, então, a partir destes estudos formativos que me conduzem ao fundamento somático de toda experiência estética e criativa, baseada no entendimento de que toda ação é, essencialmente, corporal. Afirma-se, desse modo, a continuidade do biológico ao simbólico, do corpo à linguagem, desfazendo a falsa dicotomia natureza < > cultura, sobre a qual se alicerça o modelo antropocêntrico predominante na tradição do pensamento ocidental, conforme já tratamos ao abordar as ideias de Nicola Perullo. A perspectiva formativa proposta por Regina Favre compreende o corpo como um processador ambiental em contínua produção de si e de mundo pela interação de suas camadas embriogênicas (2011). E essa produção, entendida como poiesis, é que nos interessa situar no cerne desta pesquisa em artes.
Derivado do grego antigo, poiesis significa “fazer” ou “criar” e refere-se à capacidade de trazer algo à existência. Desde uma perspectiva evolucionista, podemos pensar a poiesis como extensiva a todo o espectro das ações humanas compreendidas na sua jornada de produção de si e de seus ambientes, do nascimento à morte. A ideia de “biopoética” pretende enfatizar a capacidade de produção dos corpos e de seus ambientes, com suas formas e seus modos de existir, como agentes simultaneamente biológicos e culturais. Portanto, o objetivo é trabalhar com procedimentos, protocolos e dispositivos que favoreçam a poiesis como função fundamentalmente corpórea, compreendida em todo o continuum das ações humanas.