F. T. começou sua investigação sobre sua ancestralidade durante as pesquisas de Borandá. Durante o rito-entrevista, ela acessou uma cena de seus avós na sala de jantar. Seu avô como uma presença autoritária e uma voz de poder que ocupava todo o recinto, enquanto sua avó aparecia sentada num canto da sala absolutamente imóvel e silenciosa com pequeno sorriso resignado. Na consigna da carta, ela quis escrever algo para essa personagem, que chamou de “avó-móbilia”. O grupo Borandá se encerrou e eu não soube mais do que seguiu transcorrendo em relação a este tema até a realização do segundo ciclo de LABios pelo SESC Santo Amaro, que F. T. se inscreveu para participar.
Soube, então, que aquele experimento grupal com as outras mulheres centrado nas questões da memória ancestral havia disparado um processo investigativo: ela começou a fazer perguntas para sua mãe e sua avó, quis ouvir suas confissões e trazer à tona as histórias das mulheres de sua linhagem. Coincidentemente, neste momento, uma tia historiadora produziu um livro sobre a História de sua família a partir de um acervo documental que continha certidões de casamento, de óbito, testamentos etc. Através desse livro, ela veio a saber de uma relação patrimonial que listava terras, fazendas, mobiliário, animais e seres humanos na qualidade de mercadoria: o passado escravocrata de sua família.
Durante nossa sessão individual de acompanhamento no ciclo LABios, ela me relatou que sua avó materna havia autorizado que ela fotografasse as cicatrizes dos seios retirados após um diagnóstico de câncer em uma das mamas: “tira logo tudo, não só o seio doente, tira tudo que dá menos chance pro azar”, foi a decisão dessa avó endurecida por abandonos e abusos sofridos por homens. Então F. T. há tempos acalentava o desejo de fazer algo com essa fotografia. Quando soube que não poderia participar presencialmente da mostra na sala CTA do SESC, pois estaria em outro compromisso, ela ficou decepcionada e perdida. Eu lancei a ela a provocação de “como ela poderia se fazer presente através de seus trabalhos”. Isso a friccionou e até irritou. Com este estado de coisas, fomos para o atendimento e, após algumas trocas, o seguinte diálogo se deu:
N.L.: E como você se capta neste momento?
F.T.: Eu sinto que a metamorfose já terminou. E a borboleta acabou de sair casulo… mas é como se as asas ainda estivessem um pouco recolhidas.
(Ela tinha mencionado diversas ideias de produções de trabalhos, mas ainda nada havia sido disparado e nós já caminhávamos para a composição da mostra).
N.T.: Experimenta fazer então essa forma… a “borboleta com as asas ainda recolhidas”. Como é isso? Entra na forma.
(Ela então recolhe os braços dobrados, colando os cotovelos no tronco e a cabeça se inclinando para as mãos junto ao pescoço… eu faço a postura junto com ela, ajudando a sintoniza-la com essa forma, enquanto vou descrevendo o que sinto quando faço).
N.T.: Isso… capto uma espécie de timidez e quase uma preguiça… poderia ficar aqui desse jeito sem precisar fazer nada… só permanecer no meu canto quieta.
F.T.: Sim…
N.T.: Interessante que os braços aqui também servem para proteger o tórax, fechar o acesso às regiões dos órgãos vitais, ocultar a vulnerabilidade. No entanto, também é verdade que existe um desejo de participação no mundo, de se colocar no coletivo… Como fazer para abrir as asas e esboçar um vôo? Vamos experimentar desfazer um pouco essa forma, em graus e devagar. Do recolher as asas ao abrir das asas…
Fizemos 3o passo do método por alguns instantes, pulsando um lento abrir e fechar dos braços. Então eu a oriento a descansar para captar-se (4o passo). Na pausa, ela se deu um momento para integrar aquela experiência de desorganização e produzir outras sinapses, outros diálogos neuromotores. Pela tela, eu via acontecer a pequena dança das asas se espreguiçando e uma enervação dos braços acontecendo. O peito exposto, vulnerável e os braços ao longo do corpo, porém prontos para fechar se necessário — ou seja não estavam “desarmados”, mas disponíveis e ativos. Sentindo reativar a pulsação nos braços, entendi que o trabalho havia sido feito.
Dias depois dessa pequena intervenção somática, F.T. disparou a produzir peças têxteis que contavam as histórias que ela havia narrado. Rapidamente, ela se tornou capaz de elaborar três obras para compor a mostra coletiva no SESC que surpreenderam pela sofisticação da produção, sua consistência conceitual e maturidade experimental e técnica. Os braços tornaram-se capazes de “fazer ver” (por meio do gesto que intervém sobre tecidos, papéis, fotografias, cacos de xícara e linhas) certos fenômenos que sua percepção havia captado.

Trabalhos de F.T expostos no encontro de encerramento do ciclo LABios realizado no SESC Santo Amaro, nov/23