Este diálogo que relato a seguir ocorreu no segundo encontro de um ciclo de cinco sessões que ofereci gratuitamente a uma artista durante as fases de pesquisas para composição do terceiro ciclo de LABios. Não foi ela que me procurou, portanto. Eu propus a partir de conhecer um pouco de sua história de insatisfação com relação ao tema “ganhar dinheiro x fazer somente aquilo que gosto e desejo”. Sua atitude, no primeiro encontro, foi de resistência e desvio de atenção, sua presença era fugidia. Eu sentia que ela temia ser “orientada a fazer coisas contra sua vontade”. Neste fragmento que transcrevi, ela já havia sinalizado que, muito embora tivesse experimentado um prazer em retomar contato com seus livros dos tempos do doutorado, ela não tinha interesse em reativar esse caminho intelectual. Sua postura era defensiva e taxativa em relação a não querer reabrir o caso apenas porque sentiu prazer em estar com os livros. Ela parecia imaginar que minha condução ia seguir no sentido de forçá-la a explorar essa relação com os livros. Como não foi essa minha atitude, ela desmontou a armadura da defesa e a conversa seguiu por essa outra direção.
N.L.: Como reverberou o encontro passado na sua semana?
R.W.: Mexi um pouco no meu cenário… Encontrei livros em francês da época dos meus estudos, de 2010! Também senti vontade de pintar… aí comecei a fazer esses bordados de cogumelos e fiquei um tempo nisso, mas ainda não sei como vou finalizar. Então ah, larguei tudo e fui começar um tricô. Não sei, andei meio aérea, resolvi me dar férias.
N.L.: O que essa experiência de mexer nos seus livros de estudos fez com você?
R.W.: Olha, então pensei e refleti muito, sabe… eu acho que já passei da fase de uma auto-cobrança, de eu ter que retomar essas coisas.
N.L.: (interrompo-a abruptamente) Eu não perguntei o que você pensou a respeito, eu perguntei “o que mexer com esses livros fez com você”. O que você sentiu, não o que você refletiu sobre.
R.W.: Ah… sim. Eu senti prazer.
N.L.: Pronto.
R.W.: Senti prazer de ficar folheando eles…
N.L.: Uma prazer tátil, sensorial.
R.W.:Sim.
N.L.: Percebe como você esteve se justificando desde o início? Na verdade, desde a sessão passada… Só que, veja, eu não estou aqui para cobrar de você resultados ou avanços nos seus processos criativos. Eu não sou “coach”. E também não vou dizer “olha, agora você vai focar nesse trabalho e desenvolver uma loja virtual e trabalhar o marketing de vendas etc”. Estou aqui para te ajudar a perceber “como você faz o que você faz”. Então, quando eu ouço você desviando do que eu te perguntei para me dar sua declaração final a respeito da decisão de não retomar esses estudos, o que eu percebo é alguém que sente a necessidade de defender um desejo de fluidez e liberdade de trânsito… talvez porque se sinta uma pressão de fora por cumprir metas etc. Estou errada?
R.W.: Não, é isso mesmo.
N.L.: Como surgiu o desejo de bordar cogumelos?
R.W.: Uma vez eu vi na internet e fiquei apaixonada. Aí finalmente eu comprei o curso e estou aprendendo.
N.L.: É interessante o comportamento dos fungos… eles espalham os esporos pelo ar, os micélios. Mas também se associam com as raízes das plantas formando as micorrizas, muitas vezes compondo uma espécie de rede de comunicação que conecta e troca informações entre as plantas pelo solo… como uma internet da floresta.
R.W.: Olha, que interessante! Você conhece o conceito de “rizoma”?
N.L.: Então, é exatamente sobre isso que eu quero falar. Você é capaz de disparar vários processos ao mesmo tempo: é o tricô, é o estudo de análise do discurso, é o bordado do cogumelo, é a pintura, é a música… E você transita de um para o outro exatamente desse modo rizomático. Só que você conclui os processos. Você se doutorou, você termina os trabalhos manuais… não é que você larga tudo no meio.
R.W.: É verdade, mas parece que o mundo está sempre cobrando que você seja especialista numa coisa, aí como eu gosto de muitas coisas fica difícil. Às vezes, eu me cobro que eu devia focar numa coisa só, mas aí eu fico triste e não quero nem fazer mais nada.
N.L.: Então… porque, afinal você precisa de liberdade para poder circular pelas coisas. E a obrigação de ter que ser uma coisa só enfraquece sua vontade. Esse é o seu jeito, percebe? Eu também tenho necessidade de múltiplas criações diferentes, eu constelo diversas criaturas porque eu tenho fome de criar cosmos, de produzir mundos.
R.W.: É eu sou assim, eu crio uma coisa e aí eu vou produzir outra que conversa com ela e uma outra que embala… as coisas não estão lá soltas.
N.L.: Eu sei, não tem nada solto… é um cosmos que as mãos vão instaurando. Mas eu também carrego essa voz que me cobra fazer uma coisa apenas. É claro que eu quero ganhar meu dinheiro com meu trabalho, mas se eu não encontrar uma estratégia para existir como me sinto mais eu, não encontrarei satisfação na vida. Então essas vozes que chegam de fora entram na gente e passam a se comportar como se fôssemos nós mesmos. E aí é da nossa própria mão que o chicote estrala. O mundo nos educa para sermos nossos próprios agentes de controle. A gente aprende desde criança que se não fizer do jeito que o mercado selecionou, não vai dar certo. Então eu me coloco aqui como uma aliada do seu desejo, uma advogada do seu direito de existir ao seu modo, à sua maneira. Não sou coach, não vou te ensinar a ganhar dinheiro. Mas posso ajudar a desorganizar o comportamento que te despotencializa e isso te libera de ter que ficar se defendendo o tempo todo dessa voz que desmotiva, desmobiliza e enfraquece sua prática. Aí, talvez, talvez você possa encontrar o modo de fazer algumas negociações para se colocar no mundo exercendo sua pequena resistência. Então você sentiu prazer ao mexer nos livros. Ok. Vamos por enquanto apenas ficar com o prazer e você não tem que pensar em fazer nada com isso. Só deixar essa experiência de deleite reverberar.
Obs: Infelizmente, não foi possível prosseguir com o trabalho para avançar nessa relação entre a camada que resiste a se submeter às fórmulas do mercado e a camada que a cobra no sentido de fazer algo que traga dinheiro. Estabelecer uma conversa entre esses corpos poderia abrir um novo campo de tensões internas, favorecendo a emergência e o amadurecimento de um modo de negociar a necessidade de “estar no mercado” com a necessidade de “produzir trabalhos autorais” a partir de poder rizomar pelas técnicas e linguagens.